A estas alturas o veredicto do caso USA vs Helio Castro Neves et al já é notícia velha, jornal amassado, página virada. Inocentado em todas as acusações de sonegação ele deve estar se preparando para a corrida de Long Beach amanhã a tarde, mas venho mesmo escrever é para contar sobre a experiência de estar no tribunal esta semana que passou. Aqui qualquer um disposto a dar o equivalente do R.G local para o guarda scannear, deixar os celulares no carro, morrer congelado de tão frio que é o ar condicionado, ah e é claro passar pelo detector de metais, tirar o sapato, e ser questionado pelos brutamontes com cara de poucos amigos,pode sentar dentro de uma sala de julgamento.
Estive lá para o primeiro e segundo dia de deliberações e ontem quando o veredicto foi anunciado. No primeiro dia de deliberações Helio estava literalmente em frangalhos. Me dava a impressão que ele revia cada dia dos últimos dez anos para tentar entender como que ele estava naquele tribunal. Enquanto a acusação não parava de dizer que era tudo uma conspiração, que eles (Helio, a irmã, e o advogado) queriam era defraudar o governo americano, Helio rascunhava num bloco de papel, e eu me perguntava se eles estavam realmente entendendo todos os jargões e acusações, afinal não é todo mundo que tem conhecimento suficiente de um idioma estrangeiro para compreender um julgamento (eu me viro em francês, o suficiente para não morrer de fome, ver filme, mas entender um julgamento pas de tout!!). Um repórter me disse que um dia eles tinham um dicionário na mesa. Nesse dia, Kati tentava se distrair e conversava muito com os amigos e familiares, mas Helio passou o dia cabisbaixo, com um terço na mão, amparado por todos, pelos pais, amigos e a namorada. Quando os jurados anunciaram que iam continuar com os trabalhos na segunda, voltei para casa e pesquisei um pouco mais sobre os termos que estavam sendo usados pela acusação. Foi ai que tive certeza que ia depender de como os jurados entendessem os termos, é muito técnico e infelizmente algo que um cidadão comum não tem acesso ou conhecimento sobre o assunto.
No segundo dia de deliberações, Helio estava mais calmo, até comentou sobre o fato de ter chorado na tarde de sexta-feira. Disse que como era difícil esconder a emoção. conversamos sobre as últimas semanas e se ele estava se preparando para correr. Afinal ele pode aprender a dançar em 13 semanas, mas pilotar fora de forma é outra conversa. Me disse que sim estava fazendo ginástica e tal, mas quando foi entrar em detalhes, o advogado acabou interrompendo que não era para ele falar sobre as corridas (acho q foi a namorada que traduziu para ele sobre o que estávamos falando). A segunda-feira terminou tal qual a sexta, sem novidades e com o juri sem chegar a um veredicto. “Não desejo isso a ninguém, sabe, nem ao pior dos inimigos. é horrível ficar lá dentro sem poder fazer nada, sem poder entender bem” desabafou quando o dia acabou.
Ontem, foi o sexto dia de deliberações, e desde quinta o juiz já estava alertando os jurados que deveriam pensar melhor e para que todos aqueles que estivessem em dúvida que reconsiderassem suas opiniões. E foi assim que pouco depois do almoço saiu o veredicto de inocente. Na corte os presentes comemoravam, os irmãos abraçados choravam, a promotoria fechou a cara (tanto que se recusou a falar com os canais de televisão que estavam de plantão na porta do tribunal). Por mais de uma hora ele falou com repórters em três idiomas, recebeu ligações de amigos, parentes, outros chegavam correndo para festejar. Consegui conversar com ele mais um pouco quando ele já ia para o carro. Contou que o Penkse estava com o carro n3 pronto, que não via a hora de chegar lá (o jatinho da equipe estava vindo para levá-lo à California), e que agora era bola pra frente. O melhor foi quando tentaram convencê-lo de escalar uma grade para comemorar, ele bem que estava cogitando ir, mas o advogado (sim o mesmo!) mais uma vez disse que não. Naquele burburinho tocou o telefone e era a revista People ligando (afinal o sucesso dele no Dancing with the Stars foi impressionante, lembro de centenas de pessoas no autódromo com camisetas “I voted for Helio” – eu votei no Helio), no outro era a Radio Bandeirantes, e todos apressando para que ele entrasse no carro. E assim um pouco depois das 3 da tarde no final da sétima semana de julgamento ele deixou o District Court de Miami pela última vez. Existe um burburinho que talvez eles processem o governo civilmente, pelo menos foi o que deixou a entender a declaração do advogado que quando estava saindo disse: Bye for now!
Confesso que fui daquelas que disse que infelizmente com certeza ele ia ser preso, afinal aqui teoricamente o governo não falha e quando te processam por sonegação de impostos estás perdido. Mas também confesso que nesses dias que estive no tribunal vi de perto a sinceridade de Helio e a vontade que ele tem de voltar a correr, e vi também o quanto ele não tinha idéia o que estava acontecendo e como ele tinha ido parar lá. Vão dizer que era tudo fingimento, mas eu o vi cumprimentar guarda por guarda, sim os brutamontes interrogadores, falar com todos que se aproximavam, e mesmo no auge da intranquilidade quando os advogados pediam que ele não falasse com os repórteres, ele ia lá e dava uma declaração por mais sucinta que fosse. Eu já tinha tido contato com ele no autódromo aqui em Miami e posso dizer que ele é alguém que me tratou igual quando estava lá cima e agora quando estava lá embaixo.
O governo não pode voltar a processá-los pela sonegação de impostos (Double Jeopardy é o termo, você não pode ser julgado duas vezes pelo mesmo crime, lembram do filme da Ashley Judd?) mas a acusação de conspiração se mantém até que o governo decida se vale ou não a pena recomeçar um julgamento só por isso, ainda mais agora que o alicerce da acusação foi desacreditado.
Minhas visitas à corte renderam três colaborações para a Folha de São Paulo. Se não tiverem lido ainda me avisem que eu mando para vocês (eloisa@f1girls.com.br). E em outubro quando tiver corrida por aqui conto se ele continua igual!
Escrito por Elo 




