Como são as coisas, não é? Há pouco mais de um mês, Jenson Button estava praticamente desempregado, pensando em conseguir patrocínio pra disputar provas de triatlo (o hobby do piloto britânico). Hoje, ao vencer a segunda prova em duas semanas, sua expressão ao sair do carro e abraçar os mecânicos era um misto de alívio, incredulidade (ainda) e alegria. Enquanto a recém-nascida Brawn GP comemora, as todas-poderosas de 2008, McLaren e Ferrari, amargam um péssimo início de temporada, marcado por pilotos insatisfeitos (por vários motivos), decisões equivocadas e a constatação de que seus carros têm sérios problemas de projeto.
Fato: Kovalainen é um zero à esquerda, e não é de hoje. A McLaren, neste momento, disputa o campeonato com apenas um carro, e não adianta nada Lewis Hamilton fazer o que pode e o que não pode na pista se a própria equipe lhe sabota. Fato: a Ferrari precisa entender que não detém mais a supremacia e que trapalhadas como a cometida nos treinos classificatórios de sábado podem lhe custar muito caro. Como é que pode uma equipe de ponta simplesmente assumir que o tempo era suficiente e desprezar totalmente as adversárias? Fato: pilotos que até o ano passado não passavam do meio do grid (a menos que as circunstâncias fossem totalmente inesperadas), como Rosberg, Vettel e Glock, agora despontam como revelações.
Sinceramente? A F1 é muito mais divertida assim. Acabou o marasmo das madrugadas em que passávamos voltas e mais voltas sem ver uma mudança sequer na classificação. As 31 voltas completadas do GP da Malásia foram tudo, menos entediantes. Cheguei a perder a conta de quantas vezes Jenson Button tinha trocado os pneus (e permanecido na frente!), e em vários momentos me vi pensando “ei, espere, como esse cara foi parar aí?”, como quando Hamilton apareceu em sexto. E a maluquice da FIA de marcar a corrida para um fim de tarde na Ásia, em plena temporada de monções, só podia dar no que deu: o circuito de Sepang foi inundado por um verdadeiro pé-d’água que fez Interlagos 2003, quando eu e a Gil quase morremos afogadas na arquibancada, parecer uma garoinha.
Mas vamos ao que interessa: Button largou mal, perdendo três posições, e quem pulou na frente foi Nico Rosberg (e como é bom ver a Williams disputando a liderança de um GP novamente!). Já Barrichello, que tinha se classificado em quarto e largado em oitavo (foi punido por trocar a caixa de marchas) compensou o erro da semana passada com um belo começo de corrida, subindo para quinto. Já na largada, nuvens negras no horizonte anunciavam o que estava por vir: o caos.
Quem definiu melhor a situação que os pilotos enfrentaram na pista de Sepang foi Sebastien Bourdais, pelo rádio: “undriveable, undriveable” (em tradução livre, “indirigível”). Depois da vigésima-quarta volta, a confusão era geral. A Ferrari tinha feito uma bobagem incrível, colocando pneus de chuva no carro de Kimi Raikkonen muito antes do temporal apertar, o que destruiu a corrida do finlandês – seis voltas depois, ele estava no aro. Domenicali não dorme hoje.
Nesse ponto da prova, a maioria das equipes tinha apostado em pneus intermediários, mas a chuva ficou ainda pior e todo mundo precisou entrar nos boxes de novo. Quando tentaram sair, a maioria aquaplanou. A direção de prova mandou o safety car entrar, mas não adiantou mais – ninguém enxergava nada, e até mesmo pela TV o que se via eram apenas as luzes vermelhas nas traseiras dos carros.
Prova interrompida na 33ª volta (apenas 31 foram computadas), e uma longa espera (que os espectadores mais experientes já sabiam onde ia acabar, apesar de vários pilotos continuarem esperando nos carros) marcada pelas diligências de Mark Webber, um dos nomes mais ativos da Associação dos Pilotos, que conversava com os companheiros, buscando apoio para terminar a prova de vez. Negocia de lá, conversa de cá, mais de 40 minutos se passaram e a chuva diminuiu bastante – mas àquela altura, o problema era a falta de visibilidade na pista: já eram quase sete da noite na Malásia. Resultado: como a corrida parou antes de atingir os dois terços, os pilotos levaram a metade dos pontos (o que pode parecer prejuízo para a Brawn, mas já pensaram se Button volta à pista e enfia o carro em um muro?).
A situação atual, com duas provas disputadas: Brawn GP, 25 pontos. McLaren, 1 ponto. Ferrari, zero. O que levou Felipe Massa a chamar a equipe de “estúpida” em entrevista, e Lewis Hamilton a chegar quase às lágrimas em coletiva, desculpando-se por mais uma jogada espertinha da McLaren.
A classificação final ficou assim:
1. Jenson Button
2. Nick Heidfeld
3. Timo Glock
4. Jarno Trulli
5. Rubens Barrichello
6. Mark Webber
7. Lewis Hamilton
8. Nico Rosberg
Daqui a duas semanas tem GP da China. Até lá!
* declaração de Jenson Button sobre o GP da Malásia