Ontem fui acompanhar a sessão de treinos livres em Interlagos. Abaixo, o que vi, vivi e ouvi.
A ida
Optei pelo transporte público. Vale lembrar que trem é devagar e não passa um atrás do outro, como metrô, mas ainda assim vai mais rápido que a Marginal Pinheiros em vários momentos do dia. A estação Autódromo fica a 600m do portão G e lá dentro é a única vez em que se vê uma sinalização (o nome do autódromo, a setinha para a saída e pronto). No caminho, guie-se por mapas, GPS, bússola, assistência divina, informações dos policiais ou, se for um horário de maior movimento, siga a multidão. Na sexta, não foi possível essa última alternativa, pois tinha pouca gente por ali).
Na frente do portão G, tem um mapa desexplicativo. Justifico: tinha um desenho do circuito (algo como este abaixo), com a indicação dos portões. Mas o que desnorteava o usuário é que havia várias indicações de “Você está aqui”. Imagino que role um momento de dúvida na pessoa: “Sou onipresente? Sou Deus? Estou no portão A e no G ao mesmo tempo? Como fiz isso?”, que só passa (para os mais atentos) ao notar que existe um “Você está aqui” maior que os outros. Numa lógica de mundo animal, o quadrado grandão vence os menores, e acaba por convencer a localização do indivíduo. Para quem sofre de síndrome de múltiplas personalidades, talvez signifique que a
personalidade dominante esteja no portão G e as outras, fracotes, espalhadas pelo A, F, V etc.
Bom, aceitei que estava no G, mas não consegui entender se o S (meu destino) era para a direita ou para a esquerda. O mapa era muito alto, confuso e não estava na mesma orientação que eu. Perguntei para um policial, que gentilmente me explicou. Quando estava chegando próximo a ele, ouvi uma conversa de seus colegas, dizendo que faltava sinalização ali e que eles passaram boa parte do dia prestando informações (já dizia a música: “Polícia para quem precisa”).
Depois de andar um bocado, passando por ruas, subindo e descendo calçada (sim, porque meus conterrâneos paulistas fazem rampas para entrar nas suas garagens e não estão nem aí para os pedestres. Então, caminhar em São Paulo é como uma corrida de obstáculos a cada meio metro), eis que cheguei ao portão. Finalmente, lá dentro, vi sinalização. Agora que já estava lá dentro? Que seja. Objetivo cumprido, queria logo ver os carrinhos queridos.
Segurança
Vi uma boa quantidade de policiais que, imagino, deva aumentar bastante no sábado e no domingo, mas não me senti segura andando pelas redondezas do autódromo. Imagino que para um turista, principalmente estrangeiro, deva causar bastante medo. Muitos vendedores ambulantes, cambistas, pessoas de condições econômicas bem limitadas que olhavam incansavelmente, residências carecendo urgente de reforma… um cenário bem intimidador, lamento.
Eu e meu acompanhante não passamos por qualquer ponto de revista. Estávamos com mochilas grandes. Na minha tinha um guarda-chuva, uma necessaire (que, na correria, me esqueci de tirar) com lixa de unha de metal, grampos para cabelo, perfume, maquiagem, até um alfinete, desodorante em spray… Tinha também uma garrafa de 600ml de refrigerante, maçã, suco de caixinha com canudo, canetas, fone de ouvido, agenda… Enfim, eu poderia agredir/matar alguém lá na arquibancada das mais variadas formas. Por spray nos olhos, enforcamento, corte na jugular e ainda poderia passar meu batonzinho e sair de lá produzida para a night tranquilamente. Errei em levar tantas coisas, claro, mas foi realmente por distração e muita pressa. Ganhei o ingresso já na sexta-feira e tive que atravessar a cidade para buscá-lo.
Visual
A arquibancada S oferece uma boa visão do autódromo, apesar de oposta (e por isso não mostrar) a reta dos boxes, que é onde geralmente as coisas mais acontecem. Fica bem em frente a uma curva, o que é bem interessante na hora de filmar ou tirar fotos. O espectador vê o carro bem de pertinho, no final da reta oposta, até longe, no alto, na subida dos boxes. É bem interessante ver a variação de velocidade e ouvir a sinfonia (uia!) de sons dos motores acelerando e reduzindo.
Fiquei surpresa com a pintura da Renault. Sempre a achei feia, mas de longe é a mais reluzente. Bom, o vermelho-Ferrari e a flecha de prata (McLaren) são clássicos. Não contam.
O público
Algo que me impressionou bastante foi o comportamento das pessoas. Segunda sessão de treinos rolando, uma senhora à minha frente entretidíssima com suas palavras-cruzadas, um senhor no notebook navegando no site de um banco, muitos saindo da arquibancada e voltando com copos de cerveja, uma mulher (que não deve saber nem que Ferrari é vermelha) que não olhou uma vez sequer pra pista e ficou andando pra lá e pra cá atrás de um menino pequeno que insistia em correr (seria a mãe ou a babá? agora penso), uma moça dormindo no colo do namorado e uns que ficavam em pé, atrapalhando a visão de quem estava comportadamente sentado, observando os carros e os monitores (alguns exibiam a transmissão para a TV e outros a tabela do live timing). Penso que, se lá estava tão pouco interessante, deviam ter ficado em casa, não? Quanta gente, que gosta de verdade de automobilismo, gostaria de estar lá e apreciaria devidamente o evento! A filosofar.
A sessão de treinos, que é o que interessa mesmo!
Dominio da STR e RBR em 90% ou mais do tempo. Buemi figurou o tempo da lista por vários e vários minutos. Os carros ficaram bastante na pista, dando mais de 30 voltas (uns quase chegaram em 50), e aquele que menos andou, Alonso, com 27, fez o melhor tempo. Treino de sexta geralmente não quer dizer muito, mas coincidentemente fez com que, nos meus resultados (meus, olha!), toda vez que vou a um autódromo, o espanhol fica na primeira colocação. Aconteceu isso em dois treinos livres, em um oficial, em uma corrida e em um campeonato. Seria eu um amuleto? rs
Faltando uns 30 minutos, pouco menos, começou a garoar, bem fininho mesmo, os carros voltaram aos boxes, ficaram um pouco por lá, mas ainda retornaram para o final da sessão. Algumas derrapadas breves, mas no ponto em que estava, ninguém saiu da pista. Teve até umas ultrapassagens, mas porque uns estavam no aquecimento e outros na volta rápida. De qualquer forma, legal de ver, pois sempre é preciso atenção diferenciada dos pilotos nesse momento.
Reparei, então, que Fisichella constava como fora dos boxes no live timing, mas não passou à minha frente. Pouco depois, a TV mostrou que seu carro estava parado do outro lado do circuito. Meia hora depois do término do treino, passou o caminhão-guincho com a Ferrari. Velocidade baixinha, bom pra ver aquela belezura
nos detalhes. Regalo para a torcida.
Áudio e vídeo
A locução no autódromo é feita pela Band News/Rádio Bandeirantes. As participações da Bárbara Gancia são sensacionais! Ela tirando sarro do Grosjean foi hilário (você pode segui-la no Twitter. Ela é ótima, muito engraçada e inteligente).
Os monitores são bons e a distribuição é satisfatória. Além disso, uns exibem o live timing e outros o que passa na TV. O porém é que eles ficam em estruturas muito sensíveis e quando as pessoas andam próximas a eles, eles tremem bastante.
A volta
Saí do autódromo de carro (carona com meu amigo) e estava péssimo o trânsito! Para chegar até a Marginal Pinheiros, que fica bem perto dali, foi mais de meia hora. Lição: nunca, nem na sexta, vá de carro para lá.
Fotos

Sinalização na entrada do portão Z

Sinalização no chão para o caminho até as arquibancadas S e V

Entrada da arquibancada S

Eu, minha Melissinha (calçado bom para dias chuvosos e para longas caminhadas - fica a dica), e a arquibancada

Visão da arquibancada S, detalhe da curva

Visão da arquibancada S. Lá no alto, a reta dos boxes

Visão da arquibancada S e as curvas de baixa, na parte superior
E foi isso. Pode ter um detalhezinho chato aqui ou ali, mas acompanhar a F1 in loco é sempre especial. Gosto muito!