God Save the King

Há poucos anos, a cerimônia do pódio na F1 era marcada pela execução dos hinos nacionais da Alemanha e da Itália, em homenagem, respectivamente, a Michael Schumacher e à Ferrari. Os não-fãs declarados do alemão, como a F1 girl que escreve este texto, tinham que engolir calados – e como a hegemonia da equipe italiana e seu piloto, na época, era difícil de quebrar, era bem improvável que ouvíssemos algo diferente nos domingos de manhã – até que Fernando Alonso decidiu que era hora do hino espanhol começar a ser assobiado no paddock.

Hoje, ao ver a Union Jack ser hasteada ao som de God Save the Queen pela quarta vez em cinco provas, fiquei imaginando se não estamos prestes a ver a história se repetindo com Jenson Button e a Brawn GP. O líder do campeonato, que já havia surpreendido ontem ao cravar a pole position no último segundo do treino classificatório, mudou a estratégia de corrida em meio à prova e venceu novamente, disparando na pontuação do Mundial, 14 pontos à frente do companheiro de equipe, Rubens Barrichello.

Barrichello, aliás, deve estar desesperado e arrancando o pouco cabelo que lhe resta, pensando em uma maneira de parar o inglês. E parece que as estrelas conspiram contra ele: sua estratégia de paradas de box era adequada ao circuito de Barcelona, onde quanto menos tempo se passar com pneus duros, melhor: o brasileiro ia parar três vezes e tentar a primeira vitória, mas foi pego desprevenido por uma lambança, cortesia do anfitrião da festa, Fernando Alonso. Rubinho havia largado bem, pulando da terceira colocação para a liderança, feito repetido por Massa, que ultrapassou Vettel (que caíra duas posições) e assumiu o terceiro lugar.

No pelotão intermediário, entretanto, o caos se instalava. Alonso deu um chega-pra-lá em Nico Rosberg, que terminou empurrando Jarno Trulli. A Toyota do italiano girou, foi parar na caixa de brita, ricocheteou de volta à pista e acabou atravessada em frente às duas Toro Rosso. Resultado: Buemi literalmente atropelou Bourdais, e os dois se chocaram com Trulli. Sobrou pra Adrian Sutil, coitado, que ia por fora tentando se livrar do enrosco e acabou atingido. O saldo da bagunça foi quatro carros fora da prova – as STRs, a Toyota de Trulli e a Force India de Sutil. Rosberg e Alonso nada sofreram, assim como Lewis Hamilton, que quase virou a quinta vítima ao passar se desviando dos escombros.

O que tem isso a ver com Barrichello? Muito simples: o safety car entrou na pista, obviamente, já que havia pedaço de carro espalhado pra todo lado, e permaneceu lá por seis voltas. E isso fez ruir a estratégia de Rubinho, porque com a entrada do safety car, uma possível vantagem de três paradas foi pro espaço. Enquanto o brasileiro mantinha o plano inicial, entretanto, Button resolveu ir para o “Plano B” (como ouvimos pela comunicação da equipe via rádio), o que definiu a prova em favor do britânico.

Se Barrichello saiu desapontado, Massa deve ter saído furioso. A Ferrari já tinha estourado a cota de burradas do final de semana no sábado, ao destruir as chances de Kimi Raikkonen de disputar uma colocação razoável no grid de largada. Hoje, o pessoal de Maranello simplesmente errou na matemática. Massa vinha bem – comprovando a evolução da equipe, largando em quarto e mantendo-se na briga pelo pódio – até que recebeu um recado por rádio do engenheiro Rob Smeadley, informando-o de que seu combustível não seria suficiente para chegar ao final da prova se ele continuasse forçando o carro na disputa pelo terceiro lugar com Vettel. A irritação do brasileiro ao responder à equipe era perceptível: “What can I do? What can I do?” (o que é que eu posso fazer?). Massa teve que se conformar em tirar o pé e ver Webber voltar do pitstop em terceiro, Vettel confirmar o quarto lugar, e ainda ser ultrapassado por Alonso. A gasolina da Ferrari mal deu para cruzar a linha de chegada.

Com o início da temporada européia, o domínio da Brawn GP não deixa de ser uma surpresa, já que a maioria das equipes está estreando os novos pacotes aerodinâmicos e era de se esperar que houvesse mais disputa na pista – com a exceção da RBR, que já vinha apresentando bons resultados, e da Ferrari, que apesar da estupidez coletiva (definitivamente, a presença de Schumacher no paddock não ajuda) apresentou uma evolução, nada parece ter mudado muito desde Melbourne. E abro parênteses aqui para dois comentários bem pessoais: 1. O QUE A MCLAREN ESTÁ ESPERANDO PARA DEMITIR HEIKKI KOVALAINEN? e 2. Onde está Robert Kubica? Fecha parênteses. Quanto a Kimi Raikkonen, foi um final de semana para esquecer, com a frustração nos treinos e um acelerador pifado na prova.

A próxima etapa é nas ruas de Monte Carlo, uma situação totalmente atípica. Vamos esperar pra ver.

Classificação do GP da Espanha:

1. Jenson Button (Brawn GP)

2. Rubens Barrichello (Brawn GP)

3. Mark Webber (Red Bull Racing)

4. Sebastian Vettel (Red Bull Racing)

5. Fernando Alonso (Renault)

6. Felipe Massa (Ferrari)

7. Nick Heidfeld (BMW)

8. Nico Rosberg (Williams)

PS: Na última sexta, oito de maio, fez 27 anos que a F1 perdeu uma das suas maiores estrelas. Meu (e de todas as F1 Girls, imagino) eterno respeito, admiração e saudades de Gilles Villeneuve.

11 respostas para God Save the King

  1. Ron Groo disse:

    Eu não creio que a Brawn vá monopolizar tudo até o fim do ano. Acho que nem grana pra isto eles tem.
    E nem Jenson tem o talento do Schumacher.
    Goste-se ou não do teutônico há de se admitir que ele era o melhor de longe….
    E Vi, adorei.. Union Jack, o nome correto da bandeira da Gran Bretanha…
    Eu me pergunto, e aquela bandeira branca com uma cruz vermelha que a Inglaterra usa?
    MAs vamos emfrente, afinal Button ainda não ganhou nada além de batalhas. Porém penso que ele levará a guerra de boa…
    A ferrari e a Mclaren que poderiam fazer frente não são pareo e, pior, a Ferrari ainda tem uns burros no comando da equipe.

    • Viviane disse:

      Oi, Groo!

      A Union Jack é a bandeira da Grã-Bretanha. A vermelha e branca é só da Inglaterra (a cruz vermelha é a Cruz de St. George), como a azul e branca é só da Escócia.

      Concordo que ainda está cedo pra apontar campeões, mas do jeito que a coisa vai…

      Até Mônaco! Abração!

      Vi

  2. Valdemar disse:

    A Brawn vai vencer todas as corridas, cumprindo a profecia apocalíptica dada por Alonso ainda durante os testes de pré-temporada em Barcelona. Ferrari e McLaren podem ir pensando em 2010, pois este ano não têm mais o que fazer.

    Enquanto isso… Coitado do Massa… “What can I do? I have to fight for the position!”. Foi o que ele disse para o engenheiro que o informou que não teria combustível para completar a prova. E Raikkonen? Meu Deus… Dea e Pit, por favor, escolham outro pra torcer, porque o Kimi virou um Montoya em seus piores dias de McLaren…

    Brawn e Red Bull vão disputar o campeonato. Ao que tudo indica, com Button e Vettel, que são nitidamente melhores até o momento do que seus companheiros. Se bem que hoje o alemãozinho levou uma rasteira de Marquinhos Webber, que beliscou um pódio numa estratégia de uma parada só e deu uma ofuscada em Vettel, que passou a corrida toda no jogo de gato-e-rato com Felipe.

  3. Realmente o GP da Espanha me trouxe boa parte dos questionamentos relatados. Mas não pude deixar de notar o comentário 1 do parenteses. Talvez porque ele esteja em caixa alta.

    Mas fundamentalmente porque eu não vejo grandes motivos para uma demissão sumária e inegociável do finlandês. Não vejo responsabilidade do Kovalainen pelo seu abandono hoje. Foi ele quem quebrou o carro (talvez tenha sido, mas não li nada a respeito). Além disso, acho esse um pensamento algo estreito demais. Ele não está rendendo bem? Demita-o! A demissão é um espetáculo, Trump e Justus resolveram demitir em tv aberta e fazem o maior sucesso. A gente adora quando pode “eliminar” um big brother, nos sentimos bastante poderosos. Mas será que o Kovalainen não é tudo o que a McLaren quer? Alguém que se submeta ao Hamilton, que não crie o atrito que quase afundou a equipe em 2007?

    Talvez demitir dê muito mais audiência do que acolher, mas não conheço muitas pessoas que rendem melhor sob ameaça de demissão. Pelo contrário, acredito que se alguém está em um ambiente onde se sente confortável e seguro, terá muito mais facilidade para se destacar. Difícil pensar nisso no mundo atual, enquanto sofremos uma pressão enorme de perder o nosso emprego durante cinco dias por semana. Mas no domingo, quando ligamos a tv, queremos mesmo é demitir! Acho isso um pouco perigoso, no entanto.

    • Viviane disse:

      Oi, Daniel!

      Meu comentário sobre o Kova não se refere apenas a hoje. Desde o ano passado acho a performance dele simplesmente nula. Com uma McLaren na mão, ele tem obrigação de fazer mais. Não me conformo mesmo em ver três equipes boas correndo com um piloto só (McLaren, Williams e Renault), quando tem tanto guri talentoso querendo uma vaga na F1.

      Abraço, Vi

  4. jose luis disse:

    Daniel Médice, vc mandou bem. Parabéns !!! Ano passado, a esta altura do campeonato algumas pessoas diziam que o kimi seria o campeão, e que o Massa não valia nada. Situação que se inverteu completamente.

  5. Jéssica Welma disse:

    Ver o carro do Massa na situação em que estava nas últimas voltas, me fez lembrar do desespero que foi,pelo menos pra mim, nas últimas voltas da corrida no Brasil, quando Timo Glock foi perdendo o desempenho por causa dos pneus e deixou Hamilton passar e ganhar o campeonato. Realmente vi boas chances para o Felipe, mas não há Felipe sem Ferrari.

    O Rubinho, quando o vi na frente, comentei com meu tio que tb assistia à corrida: “eu acredito em tudo, menos que o Rubinho termine na frente”. E olha que já estou com saudades de ouvir nosso hino brasileiro na hora do pódio!

    Agora é esperar o que vai acontecer em Mônaco, onde a pista é bem diferenciada, e o desempenho dos pilotos tb!

  6. gilberto disse:

    Sabe que pro piloto de verdade, é ótimo ter um segundão de companheiro. Um Kova, um rubinho, um “navagina” e tantos outros. Se eu fosse dono de equipe iria querer um piloto abusado que, quando não ganha encoste roda, vai na grama ou na caixa de câmbio do outro (seria o LH) e um segundão que obedece tudo e seja o rei da desculpa mas que não ande tão lento que é pra fazer a dobradinha vez ou outra (seria o rubinho). Nesta prova, apesar de não gostar do estilo massa de pilotar, fiquei com dó do rapaz. Deve ser revoltante e humilhante “ter que” deixar o adversário passar podendo andar mais. Nessa hora lembrei da Jessiquinha e comentei: – Tem uma participante de um blog de F1 que deve estar mordida com isso!!!

  7. Fernando disse:

    Acho que Rubinho poderia ter sido orientado pela equipe e foi isso que ele reclamou após a corrida ameaçando deixar a F1.Vi, sei que você não gosta dele, mas a equipe britânica proteje o britânico. E você como é virtualmente britânica e até passou no teste do Ron Groo(bandeira só da inglaterra), não observa bem este lado injusto da Brown GP. A brown podia ter orientado o Rubinho porque é isso que ela deve ter feito com o Jenson, aliás, eles devian ter orientado os dois para 2 paradas e quem fosse melhor ganharia a corrida. Essa de que o próprio button fez a estratégia é muito mais difícil de acreditar porque a equipe é que controla os computadores consumo e etc..
    Ps: Também gosto muito da Inglaterra . è um pais muito bonito e dinâmico.

    • Viviane disse:

      Oi, Fernando!

      Olha só, eu não tenho nada contra o Rubinho, não. Minha antipatia (declarada) é com o Massa. Só acho o Rubinho muito chorão – chega ao ponto de passar por ridículo, com essa mania de pedir torcida, ficar se desculpando. Ele mesmo cavou a própria cova ao se colocar como segundo piloto do Schumacher, e agora bate o pé porque acha que está acontecendo de novo? Me irrita isso… Sinceramente, não achei favorecimento. Ainda. Porque fatalmente vai acontecer. E entre os dois, acho o Jenson mais rápido e mais arrojado, embora o Rubinho tenha uma mão invejável pra acertar o carro. Vamos esperar e ver o que vai acontecer em Mônaco…

      Abração, Vi

  8. Fernando disse:

    Valeu, Tá entendido. Acho que o Rubinho é mais azarado do que chorão, mas quero ver o nosso hino tocar ainda este ano com ele ou massa.

    Abraçao, Fernando

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