“Vai, Piquet!”

Eita lê lê. Esse negócio de tendinite é fogo. Chega uma hora que você não agüenta de dor e precisar dar uma trégua aos tendôes. Foi por isso que não escrevi no mês de outubro. Mas hoje eu tinha que voltar. No dia que relembramos os 20 anos do Tri de Nelson Piquet eu volto no tempo e me recordo daquela que foi a primeira corrida a que eu assisti. Mais precisamente: o GP dos Estados Unidos de 1981, em Las Vegas. Também conhecida como a prova na qual Piquet conquistou seu primeiro título. Como esta é uma corrida especial para mim, não vou me ater aos detalhes técnicos ou estatísticos ou narrativos da prova aqui. Contarei apenas minhas lembranças.

Naquele 17 de outubro, eu (então com sete anos) estava com meu pai e meu padrinho, Tio Gil, na sala da nossa antiga casa. Quase todo domingo Tio Gil (que era casado com uma das irmãs de meu pai) ia pra lá. Meu pai gostava mais dele do que dos irmãos, disso nunca tive dúvidas. Para ele, receber Tio Gil em casa era um enorme prazer. Apesar dos dois terem personalidades diferentes, meu pai gostava do estilo despojado e sem frescuras de Tio Gil. Eu também. E foi ele quem me apresentou ao mundo dos esportes e da Fórmula 1. Eu não lembro de ter visto outras corridas com ele, mas dessa não tem como esquecer tamanha sua euforia.

Piquet precisava chegar entre os cinco primeiros para consagrar-se campeão. Esta foi a primeira informação que aprendi. Até porque Tio Gil e o Luciano do Valle (se não me engano ainda era ele transmitindo as corridas na Globo naquela época) repetiam isso sem parar. Só o argentino Carlos Reutemann podia estragar a festa. Daí, enquanto painho tentava pôr o assunto da última semana em dia, Tio Gil permanecia desesperado tentando não ser mal educado com painho e dar-lhe atenção e ao mesmo tempo fazendo de tudo para não desgrudar os olhos e os ouvidos da TV.

Eu fiquei ali entre os dois e achei ser aquela uma ótima desculpa para não ficar na cozinha ouvindo a conversa entre mainha e minha tia ou participando das brincadeiras com meu irmão e meus primos lá no quintal. Eu não me lembro exatamente em que ponto eu comecei a prestar atenção de fato à corrida. Mas foi impossível ficar alheia aos gritos de Tio Gil. “Vai, Piquet!” “Vai, Piquet!”"Vai, Piquet!”"Vai, Piquet!” Daqui a pouco até eu estava na torcida e as pessoas começavam a chegar na sala para ver que algazarra era aquela.

Tio Gil estava visivelmente contente e, se fosse possível, teria invadido a pista igual muita gente fez na hora da bandeirada para o Piquet. Estava contente como só o tinha visto em jogos de futebol. A festa dele foi grande depois. Chegado numa cerveja, bebeu todas.

E eu acabava de me apaixonar por essa tal de Fórmula 1.

Uma pena Tio Gil ter morrido em maio de 1992. Teria sido um ótimo companheiro nas viagens para Interlagos, que eu só começaria a fazer dali a oito anos. Nesse Dia de Finados, esta coluna não deixa de ser também uma homenagem àquele que me apresentou a esses carrinhos maravilhosos.

Uma resposta para “Vai, Piquet!”

  1. Fábio Max disse:

    Eu achei este site e este blog sensacionais! Parabéns!

    Entendo o fascínio que Ayrton Senna causa no Brasil. Além de ser um dos maiores pilotos de todos os tempos, foi e passou a imagem de bom moço, contando, claro, com os golpes de marketing da TV Globo que inventou até um namoro com aquela apresentadora medíocre que se diz rainha.

    Mas Senna só teve um adversário na F-1, que foi Prost. Não que isso diminua seus méritos, porque os dois são repectivamente, 3º e 2º lugares históricos em resultados na categoria, onde o campeão geral é Michael Schumacher.

    Mas Piquet venceu em condições adversas numa época em que várias equipes podiam sonhar com vitórias. Sempre achei Piquet mais piloto que Senna e Prost e até que Schumacher e foi por causa dele que passei a gostar de F-1, que ficou muito chata com seus pilotos frios e calculistas e suas 2 ou 3 equipes tecnologicamente muito mais adiantadas que as outras. Hoje em dia, falta um pouco da verve de Piquet, da sua boca suja subvertendo o marketing e do seu estilo indômito de pilotar.

    Não vou alimentar polêmica, se alguém acha que Senna é melhor, tudo bem, o título também fica em boas mãos e ainda por cima, brasileiras!

    Resposta:

    Isso aí, Fábio! Ainda bem que tem vários grandes pilotos para escolhermos.
    Valeu pela visita e o comentário!

    []s,

    Pit

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