A primeira vitória de Emerson

Esse negócio de escrever coluna é engraçado. Vira e mexe você se pega pensando sobre o que vai falar na próxima. O tema deste mês é uma corrida que eu não vi (nasci quatro anos depois), mas que se tornou histórica por vários motivos. O principal deles é que acabou gerando a primeira (e a gente espera que única) conquista do título do mundial para um piloto que já havia morrido. Estou falando do Grande Prêmio dos Estados Unidos, realizado em Watkins Glen no dia 4 de outubro de 1970 – data e local da primeira vitória de Emerson Fittipaldi.

Coisa de um mês antes, no dia 5 de setembro, durante a tomada de tempo para o GP da Itália em Monza, Jochen Rindt passava pela Parabólica quando seu carro teve problemas nos freios e sua Lotus bateu forte contra as barreiras. O austríaco chegou a ser socorrido, mas chegou morto no hospital. Rindt liderava o campeonato com uma folga de 20 pontos em relação ao segundo colocado até então, Jack Brabham. A comoção com sua morte fez com que a Lotus se retirasse não só do Grande Prêmio italiano como do canadense.

Entretanto, a escuderia percebeu que ainda tinha chances tanto de ganhar o mundial de construtores quanto poderia garantir o título póstumo de Rindt e voltou com tudo para a penúltima etapa do campeonato – nos Estados Unidos. Emerson Fittipaldi, catapultado a primeiro piloto da equipe, e em apenas sua quinta corrida na carreira, desempenharia um papel fundamental para os planos da Lotus em Watkins Glen. Uma vez que somente Jack Ickx era o único capaz de estragar tudo caso vencesse em solo norte-americano e no México, Fittipaldi precisava impedir tais feitos.

Nos treinos, Ickx bateu o brasileiro e largou na segunda posição, uma à frente de Emerson. Na largada, a situação piorou e Fittipaldi caiu para 8º enquanto Ickx era o terceiro. Ele se aproveitou de problemas com dois pilotos que estavam em colocações melhores (John Surtees e Chris Amon) e pulou para 6º na 15ª volta. Somente na 37ª, ele galgou mais uma posição quando Clay Regazzoni precisou trocar os pneus. Ickx era o 2º. Emerson dependia do tropeço dos demais para poder se aproximar das primeiras posições e lutar pela vitória.

Para se ter uma idéia, levou mais 10 voltas para que o brasileiro subisse mais uma colocação na corrida e graças ao pit de Amon. Na 55ª, as esperanças de Fittipaldi devem ter se renovado. Jack Ickx precisou parar nos boxes para trocar o pneu e caiu para a 12ª posição. Ali ele dava adeus à briga pelo título e Emerson entrava de vez na briga ao saltar para a terceira colocação. Bastante atrás dos líderes, viu Jack Stewart – que ainda não havia perdido a liderança da prova em nenhum momento sequer até ali –abandonar a corrida.

Ainda faltavam 25 voltas para terminar o Grande Prêmio dos Estados Unidos e o brasileiro tinha uma desvantagem de, aproximadamente 20 segundos para o mexicano Pedro Rodriguez. Tudo dava a crer que a penúltima etapa do mundial acabaria daquela forma. Mas não foi o que aconteceu. A oito voltas do final, Rodriguez precisou para nos boxes para reabastecer. Emerson pegou a liderança e não largou mais. Cruzou em primeiro pela primeira vez na carreira, sacramentando o título do ex-companheiro de equipe, morto há um mês, e deu à Lotus seu quarto troféu como campeão do mundial de construtores.

Se houvesse máquina do tempo, esta era uma daquelas corridas que eu gostaria de estar presente in loco para ver.

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