O duelo Piquet x Senna no GP da Hungria de 86

Em apenas um momento da história da Fórmula 1, o Brasil contou com dois pilotos brigando entre si em pé de igualdade pelas vitórias. Isto foi nos anos 80, quando Nelson Piquet e Ayrton Senna foram rivais nas pistas, travaram duelos de palavras fora delas e dividiram a imensa maioria da torcida brasileira – como se houvesse necessidade de se escolher um dos dois para quem torcer (particularmente, nunca entendi porque isso tinha que ser excludente). A coluna deste mês fala sobre um dos momentos mais lembrados desta briga: o Grande Prêmio da Hungria de 86 – o primeiro realizado em um país não capitalista ou, para usar o termo histórico mais conhecido, representante da Cortina de Ferro.

Quando o campeonato chegou a Hungaroring, Senna estava em 3º no mundial de pilotos, com 42 pontos – quatro a mais que Piquet, em 4º, dois atrás de Prost (o 2º) e a nove do líder Nigel Mansell. Além da Hungria, ainda faltavam cinco corridas para terminar a temporada e o piloto que mais se aproximava dos quatro que brigavam pelo título tinha metade dos pontos de Piquet. Some-se a isso tudo a rixa entre os dois brasileiros, o fato de que, na corrida anterior, na Alemanha, Piquet havia batido Senna, conquistando a vitória e pronto: o cenário estava pronto. O resultado foi um show de pilotagem no circuito da Hungria!

Já nos treinos, o pega foi grande. Piquet e Senna baixavam décimo a décimo o tempo do outro. No final, o até então bicampeão do mundo teve que se contentar com o segundo lugar no grid, com 1’29’’785, pouco acima do tempo de Ayrton para conquistar sua 13ª pole position: 1’29’’450. Da largada à última volta apenas os dois lideraram a corrida. Senna manteve a ponta até a 11ª volta, quando perdeu o primeiro lugar para Piquet. Dali até a 35ª volta, Nelson não tomou conhecimento dos demais enquanto baixava cada vez mais o próprio tempo. Da 36ª à 56ª, Senna liderou novamente o Grande Prêmio húngaro, mas Piquet retomou a liderança a partir de então e seguiu até a bandeirada.

Esta luta direta entre os dois pelo lugar mais alto no pódio acabou gerando dois lances históricos. No primeiro deles, Piquet passou Senna por dentro mas travou as rodas, espalhou o carro na freada e Senna deu o xis. Na segunda tentativa de reconquistar a liderança, Piquet fez uma manobra surpreendente e que, até hoje, é considerada por muitos como uma das melhores de todos os tempos. Com a potência do motor Honda, Piquet pegou o vácuo e passou o piloto da Lotus na reta dos boxes por fora.

E, no mesmo local onde antes havia levado o xis, simplesmente atravessou sua Williams na frente de Senna (veja no youtube). As rodas travaram, o carro balançou, porém Piquet manteve a posição e deixou Senna para trás. Como eles não bateram? Até hoje eu me faço a mesma pergunta. Sim, eu sei que Senna recolheu a Lotus, mas como eles conseguiram fazer aquilo tudo sem sequer se tocarem realmente foi genial. Para Jackie Stewart, a ultrapassagem de Piquet “foi como fazer um looping num Boeing 747.”

Para nós, brasileiros e amantes do automobilismo, foi “apenas” mais um momento sublime do período de ouro do Brasil na Fórmula 1. Assim, houve mais uma dobradinha, Piquet passou Senna na classificação geral e… bem, preciso mesmo dizer como estava a cara de cada um deles no pódio?

4 respostas para O duelo Piquet x Senna no GP da Hungria de 86

  1. sonacirema disse:

    realmente espetacular as brigas que eram travadas na formula 1 nas decadas de 1970 e 1980. antagonicamente a formula 1(nos ultimos anos) projeta-se de maneira pacata, provocando um marasmo nos pilotos, transformando-os em marionetes. digo pacata por nao prmetir mais os duelos entre pilotos da mesma equipe. alem do mais, a formula 1 ou melhor os chefoes dela, fabricam idolos como schumacher, um cara que ao meu ver teve exito na carreira devido a prioridade que foi lhe dada, tirando de foco outros talentos, submetendo estes as vontades nauseabundas dos homens que controlam o circo chamado formula 1.no entanto a fidelidade do torcedor fanatico (as vezes) por automobilismo é advinda dos tempos de brigas intensas e constantes daquelas datas anteriores.

  2. Leandro disse:

    Há cerca de quinze dias eu tive de escrever o com o “pega” de Hungaroring e escrever um texto sobre ele. Qual não foi a minha surpresa ao ver que o GPtotal e mais algumas outras pessoas se anteciparam , e fizeram as coisas antes de mim. No entanto, após ler as colunas de outras (Incluindo jornalistas ) , bem como as sempre boas cartas dos leitores, percebi que meu texto não estava invalidado. Na verdade,algunas jornalistas me pouparam o trabalho de descrever a corrida (e o fez muito melhor do que eu faria). Além disso, os comentários que reproduziu, bem como as observações dos leitores, são exatamente o que eu precisava para defender meu ponto-de-vista

    Antes de desenvolver minha argumentação quero dizer que esta foi a ultrapassagem mais linda que eu já vi, e que penso que Nélson e Ayrton são competidores geniais e que me pareçem estar técnicamente no mesmo nível
    Esta ultrapassagem é um assunto cíclico entre os leitores. A grande maioria concorda com Flávio Gomes, e não hesita em dizer que Nélson Piquet humilhou Ayrton Senna na pista aquele dia. Alguns “sennistas” concordam; a maioria se cala, e uns poucos se arriscam, dizendo que Ayrton deixou Nélson Piquet ultrapassar, que Senna não quis assumir riscos, que ele não lutaria com outro brasileiro, ou coisas do gênero. Os fãs de Ayrton sofrem sempre as conseqüências deste tipo de defesa, que, me perdoem, é patética. Ayrton Senna não tem nada a ver com os absurdos que escrevem sobre ele.

    Bem, eu discordo redondamente do que escreveu Flávio Gomes. Não vi qualquer motivo para Ayrton Senna, sair de Budapeste em 1986 humilhado. Ayrton teve um fim de semana brilhante, genial na Hungria, a começar pela qualificação. Com sua velocidade natural, o brasileiro conseguiu aproveitar toda a potência do motor de treinos da Renault e compensar a deficiência de chassis de seu Lotus, numa pista travada e sem muita aderência. Conquistou a pole com mais de 3 décimos de vantagem para Piquet, se posicionando imediatamente à frente de Williams e Mclarens. Carros superiores, pilotados por 4 campeões mundiais, que somados abocanharam nada menos que 9 títulos mundiais .

    Os motores Renault eram famosos pelo alto consumo, e isso reduzia drasticamente seu desempenho em corridas – numa época em que o reabastecimento era proibido. Se não fosse, Ayrton talvez teria disputado prova a prova os títulos de 85 e 86. Pistas como Hungaroring, Mônaco e Jerez, bem como corridas debaixo de chuva, eram as poucas oportunidades que ele tinha de acompanhar os pilotos das duas equipes inglesas. Vale dizer que – em condições de corrida – seu Lotus não era majoritariamente superior às Ferraris ou Benettons, nem muito menos ao Mclaren de Rosberg. E Ayrton Senna superou todos estes no decorrer do campeonato.

    Ao longo da corrida, Ayrton e Nélson confirmaram seus estilos diferentes. Ayrton Senna, descendente, pulou na ponta ditando o ritmo da prova. Para ele, a primeira volta era a mais importante de uma corrida. Por isso, tal como Clark, era comum ver Ayrton Senna posicionado muito à frente do que seu equipamento poderia sugerir. Senna tinha o mesmo objetivo de Fangio – outro piloto descendente – ou seja: ganhar, andando o mínimo possível.

    Nélson Piquet, ao contrário, não dava tanto peso às qualificações, nem era tão rápido quanto Ayrton – o que, aliás, ninguém era. Costumeiramente também largava mal. Tinha um perfil notadamente ascendente. Suas vitórias eram construídas a partir de uma preparação fina do carro (e nisso Piquet era imbatível), de um ritmo extremamente forte de corrida (cuidadosamente conjugado com um aguçado senso de preservação do equipamento), e, sobretudo, de fartas e belas ultrapassagens. Piquet assina, além desta, muitas das mais belas manobras já vistas na categoria.

    Vejamos rapidamente um pouco de teoria:

    Para que exista uma ultrapassagem, é fundamental que um conjunto carro-piloto mais veloz esteja, por alguma razão, posicionado atrás de um conjunto mais lento. Quanto maior esta diferença de rendimento, mais provável a ultrapassagem, e menos provável o “pega”. Por outro lado, se o rendimento de ambos é parecido, requer-se mais arrojo e perícia de quem vem atrás para uma tentativa bem sucedida. E uma reação por parte de quem vem à frente não pode ser descartada. Foi o que ocorreu na Hungria, e acontece na maioria das grandes ultrapassagens.

    Ora, de acordo com esta lógica, Ayrton Senna já teria muitos méritos só por conseguir, no terço final da prova, ainda estar posicionado em primeiro. Mais que isso: ele estava mais de uma volta à frente do terceiro colocado – nada menos que Nigel Mansell pilotando um carro muito superior. Não é justo resumir a coisa a um “Nélson t humilhou Ayrton “, quando Ayrton Senna, num carro bem inferior, foi o único piloto a brigar com Nélson naquele dia. Mais justo seria dizer: Piquet humilhou Mansell, ou Piquet humilhou a todos. Ayrton Senna, dos que estavam lá, foi quem mais mereceu estar fora deste título. Não fosse sua garra e genialidade , Nélson Piquet não teria tido a chance de assinar sua (brilhante ) obra-prima.

    Pelo mesmo raciocínio, a disputa só teve lugar porque Piquet largou mal e se posicionou mal em relação a Ayrton por boa parte da prova, tendo de lutar para ocupar um lugar (à frente de Senna) que seria seu por direito. É bem verdade que se atrasou em sua troca de pneus, mas não foi este o fator decisivo. Em sua arrancada final, Piquet mostrou ter muito mais equipamento, e as imagens deixam claro o quanto ele era mais veloz nas retas. Em geral, o público valoriza mais as corridas de recuperação. Mas pouca gente se lembra que muitas delas seriam desnecessárias caso o conjunto mais forte estivesse posicionado conforme seu potencial, desde o início da competição.

    Outro ponto importante: Se Ayrton fosse um piloto comum, bastaria a Piquet realizar uma manobra convencional. Na 12ª volta, Nélson Piquet ataca Ayrton Senna e este não se defende. Foi assim, também, que Piquet superou Mansell ainda mais cedo. Mas a coisa muda de figura quando a prova se aproxima de seu fim. Agora Ayrton Senna se defende, e não resta a Nélson nada menos que ser brilhante. Ele extrapola, e reinventa a pilotagem.

    Pensando bem, não poderia ser diferente. Coloque na liderança um jovem piloto com talento acima da média ,extremamente veloz e totalmente comprometido com a vitória, guiando um equipamento competitivo, porém inferior e com uma incrivel capacidade de tirar de seus carros bem mais do que eles podem dar na pista (Nisso Ayrton era genial ) . Acrescente a este mesmo piloto um talento especial para evitar ser ultrapassado. Atrás dele, ponha um outro piloto Bicampeão Mundial (81-83 ) tambem com o mesmo talento acima da média e igualmente genial – o melhor de todos naquele dia – e de ritmo extremamente forte, num carro excelente e muito bem acertado, que largue quase sempre mal e que alem de sua consistencia é um dos maiores especialistas em ultrapassagens da Fórmula-1 moderna. Seria bom se este piloto estivesse numa fase conturbada, precisando muito da vitória. Conceda aos dois qualidades que os permitam vencer, cada um, ao menos 3 títulos mundiais em tempos de grande competitividade. Ah, escolha uma pista travada, que dê chances ao primeiro de se defender e obrigue o de trás a mostrar todo seu repertório. Tá bom? Ainda não. Falta o principal: os dois podem ter a mesma nacionalidade, e devem nutrir uma enorme rivalidade mútua, a maior que se possa conceber, penetrando, preferencialmente, a vida íntima de cada um.

    Pronto. Eis o panorama que se desenhou para aquela corrida. A verdade é que para uma manobra como esta acontecer, não basta um piloto sensacional (Nélson Piquet ) o outro (Ayrton Senna ) tambem tem que ter um talento á altura para que o outro mostre o seu repertório . E isso acontece em muitos dos casos em que se fala de ultrapassagens como aquela

    Por fim, a todos os que insistem nesta tese: Se o que vocês entendem por humilhação é:

    1- ganhar uma fortuna para ser o primeiro piloto de uma legendária Lotus preta JPS;

    2- protagonizar uma das mais belas disputas da rica história da categoria máxima do automobilismo, ainda mais na primeira corrida disputada na Cortina de Ferro;

    3- dispondo de equipamento bem inferior, ser capaz de dar uma volta em Mansell e levar um tricampeão do quilate de Nélson Piquet a tal extremo de pilotagem;

    4- ter a chance de acompanhar in loco, no mais privilegiado dos ângulos, a maior demonstração de controle sobre um carro, a mais bela ultrapassagem já mostrada pela televisão, bem, então ser humilhado é o sonho da minha vida.
    Sem duvida a manobra de Nélson Piquet foi diguina de um genio ,mas ele tambem precisou da genialidade do outro ( Ayrton ) para faze-lo ,Nélson foi genial naquele dia com aquela manobra ,mas dizer que ele humilhou Ayrton ,me pareçe um tanto exagerado .

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  3. hudson cavalcante disse:

    Já acompanhava f1 ha 12 anos quando vi Piquet X Senna
    em Budapeste.
    Para quem ama automobilismo aquilo foi um ato de 2 gênios.
    Segurar um carro de + de 1.000cv daquele jeito é coisa de louco.
    Só Villeneuve e Peterson faziam aquilo.

  4. almir ibrahim disse:

    Nelson Piquet e Ayrton Senna……..sao de outro planeta………

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