O ‘leão’ Nigel Mansell
Enviado em 3 de Abril de 2007
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“Eu já experimentei de tudo – exceto saltar de um avião – mas nada me dá uma descarga de adrenalina tão forte quanto pilotar um carro de corrida” (Nigel Mansell)
Para muitos apaixonados por automobilismo, a imagem que eternizou Nigel Mansell foi a última volta do Grande Prêmio dos Estados Unidos de 1984: depois de largar da pole position e liderar a maior parte da prova, sua Lotus parou a poucos metros da linha de chegada. O piloto ignorou o calor de mais de 40 graus e empurrou o carro até receber a bandeira quadriculada, terminando a corrida em sexto lugar – e desmaiando logo em seguida.
Nigel Ernest James Mansell nasceu em 8 de agosto de 1953, em Upton-upon-Severn, na região de Worcestershire, Inglaterra. Formado em engenharia pela Matthew Boulton College, chegou a trabalhar por algum tempo como engenheiro aeroespacial antes de abandonar a carreira para se tornar piloto profissional. Mansell começou, como era de costume para os pilotos britânicos, no kart, e depois de alcançar resultados expressivos, vendeu tudo o que tinha (desagradando sua família) e foi competir na Fórmula Ford, em 1976. Ele venceu seis das nove corridas de que participou naquele ano – inclusive a prova de estréia, em Mallory Park – e em 1977 foi campeão da categoria, com 33 vitórias em 42 corridas, apesar de ter fraturado o pescoço em uma sessão de treinos em Brands Hatch. Os médicos que o atenderam deram a Mansell um prognóstico de seis meses de repouso, afirmando que ele tinha escapado por pouco de ficar tetraplégico e que jamais pilotaria novamente. Nigel simplesmente saiu do hospital e voltou a treinar. No mesmo ano, recebeu um convite para participar de uma prova de Fórmula 3, em Silverstone. Pilotando um Lola, terminou em quarto lugar. A determinação de Nigel Mansell, junto com seu estilo agressivo de pilotar, lhe rendeu mais tarde o apelido de “il leone” (“o leão”), dado pelos torcedores da Ferrari, os famosos “tiffosi”.
A carreira na Fórmula 3 durou apenas dois anos. Mansell cravou a pole position na corrida de estréia e terminou a prova em segundo, mas passou a temporada inteira lutando com um carro pouco competitivo; seus melhores resultados no ano seriam dois sétimos e um quarto lugares. No ano seguinte, Mansell venceu em Silverstone, e terminou o campeonato na oitava colocação. Ainda em 1979, ele sofreu um acidente espetacular, uma capotagem que lhe causou várias costelas quebradas – e que lhe valeu um contrato com a Lotus: o chefe da equipe, Colin Chapman, impressionado com o estilo de Mansell, convidou o piloto para um teste na Fórmula 1. Mesmo dopado com analgésicos, pouco tempo depois do acidente Nigel estava a bordo da Lotus, e seu desempenho foi bom o bastante para lhe garantir uma vaga como piloto de testes da equipe.
A estréia na F1 aconteceu no GP da Áustria, em 1980. O início da carreira na categoria foi turbulento: um vazamento de combustível na primeira prova causou queimaduras de primeiro e segundo graus nos quadris e pernas do piloto; uma falha mecânica impediu que ele terminasse a segunda corrida, na Holanda, e em Ímola, Mansell nem sequer se classificou para a largada por causa de um acidente. Mesmo assim, e apesar da impopularidade de Mansell com alguns dirigentes da Lotus, Chapman confirmou Mansell como primeiro piloto da equipe em 1981, quando Mario Andretti deixou a equipe pela Alfa Romeo.
Os quatro anos de Nigel Mansell na Lotus seriam difíceis. Ele completou apenas 24 das 59 corridas que disputou, e seu melhor resultado foi um terceiro lugar – que obteve por cinco vezes. As coisas ficaram mais complicadas ainda depois da morte de Colin Chapman, com quem Mansell tinha um relacionamento de profunda amizade; a perda de Chapman, segundo as palavras do piloto, “tirou o chão de sob seus pés”. O novo diretor da equipe, Peter Warr, não gostava de Mansell e nem sequer queria manter o contrato do britânico para 1984 – o que só aconteceu por pressão dos patrocinadores, a companhia de cigarros John Player Special. Na metade da temporada, a Lotus contratou Ayrton Senna para o ano seguinte, e depois de considerar ofertas da Arrows e da Williams, Mansell optou pela última.
1985 foi um ano positivo para Mansell – ele tinha um bom relacionamento com o companheiro de equipe, o finlandês Keke Rosberg, e conseguiu um segundo lugar na Bélgica, em Spa, seguido de duas vitórias, em Brands Hatch e Kyalami. Mas em 1986, o brasileiro Nelson Piquet – então bicampeão da categoria – foi para a Williams, e começava uma guerra interna para a equipe: Piquet criticava Mansell abertamente, referindo-se ao companheiro como “imbecil” e insultando a esposa de Nigel, Rosanne. Mesmo assim, Mansell obteve cinco vitórias e o vice-campeonato naquele ano, o que lhe rendeu o título de Personalidade Esportiva do Ano, dado pela BBC.
Em 1987, a rivalidade permaneceria. Piquet venceria o campeonato, mas Mansell teve seis vitórias na temporada, inclusive um histórico GP da Inglaterra, em Silverstone, quando o britânico superou o brasileiro recuperando 30 segundos em 30 voltas; durante a volta da vitória, após cruzar a linha de chegada, Mansell desceu do carro e beijou o local onde tinha ultrapassado o rival.
A temporada de 1988 foi um desastre. A equipe perdeu os motores turbinados Honda (adquiridos pela McLaren, que conquistaria o título com Senna) e Mansell terminou apenas duas corridas – ainda assim, chegou em segundo no GP da Inglaterra, cravando a melhor volta da prova sob chuva. Era o fim da parceria Williams/Mansell: no ano seguinte, o britânico disputaria a primeira temporada pela lendária Ferrari.
1989 foi um ano de mudanças na Fórmula 1: os motores turbo foram proibidos e o câmbio eletrônico, instituído. Nigel venceu a corrida de estréia (feito repetido recentemente por Kimi Raikkonen), o GP do Brasil; a vitória teve um significado especial por ser na casa de seu maior rival, Piquet. A temporada, contudo, não seria fácil – a equipe lutava com problemas de câmbio, e Mansell levou uma bandeira preta em Portugal, por dar ré no pitlane, o que lhe custou também o GP da Espanha. Ele terminaria o ano em quarto lugar.
Em 1990, outra guerra interna quase acabaria com a carreira do Leão: o francês Alain Prost, que detinha o título do ano anterior, foi para a Ferrari e assumiu o posto de primeiro piloto. A diferença de tratamento entre os dois era visível – no GP da Inglaterra, Mansell percebeu que o carro estava se comportando de maneira esquisita, bem diferente das condições do GP anterior. O piloto pressionou os mecânicos, que confessaram que haviam trocado os carros sem avisar Mansell, depois que Prost reclamou da superioridade do equipamento do inglês. Furioso, após abandonar a prova, Mansell anunciou que iria abandonar o automobilismo no final do ano.
Mas Frank Williams mudou a história da F1, ao recontratar Mansell após concordar com as condições impostas pelo piloto: um salário de quase cinco milhões de libras – um recorde para esportistas britânicos na época – e a garantia de ser o primeiro piloto da equipe. Williams não se arrependeria. Mansell venceu cinco provas em 1991, entre elas uma disputa histórica com Ayrton Senna na Espanha, onde a diferença entre os dois foi de centímetros. Com o brasileiro, Mansell dividiria outro grande momento em Silverstone: o carro de Ayrton parou na última volta, e Mansell, ao invés de deixar que Senna voltasse a pé para os boxes, desacelerou na volta da vitória, permitindo que o rival “pegasse uma carona”, sentado na lateral da Williams. O título seria de Senna, com Mansell obtendo o vice-campeonato.
1992 foi o ano de glória para Nigel Mansell. Ele venceu as cinco primeiras corridas da temporada (recorde igualado apenas por Michael Schumacher em 2004), e nove GPs ao todo, cravando 14 pole positions e assegurando o título por antecipação, no GP da Hungria, onde terminou em segundo. A BBC lhe conferiu novamente o título de Personalidade Esportiva do Ano, e ele finalmente inscrevia seu nome na história dos grandes campeões do automobilismo.
No ano seguinte, Mansell surpreendeu a todos ao transferir-se para a Fórmula Indy (na época, chamada de CART Series). A Williams havia contratado Alain Prost para a temporada 1993, o que desagradou Nigel; além disso, a equipe e o campeão mundial não chegaram a um acordo salarial satisfatório. Mansell foi para a equipe Newman/Haas (substituindo Michael Andretti, que coincidentemente tinha abandonado a categoria para ir para a F1, correndo pela McLaren). Na corrida de abertura, em Surfers Paradise, na Austrália, Mansell obteve a pole e sua primeira vitória. Nas 500 Milhas de Indianápolis, viria a sua primeira vitória em circuitos ovais – e outros três primeiros lugares lhe confeririam o título da categoria.
No ano seguinte, Mansell enfrentou sérios problemas com a imprensa, particularmente após as 500 Milhas de Indianápolis, quando, perguntado sobre se havia conversado com Dennis Vitolo, que havia batido em seu carro, respondeu ao repórter “vá conversar com ele você”. Seu relacionamento com Mario Andretti, o companheiro de equipe, era péssimo, e ele terminou voltando à Fórmula 1 em 1994, substituindo David Coulthard na Williams no GP da França e nas últimas três provas da temporada. Ele venceu a última prova, e assinou com a McLaren para 1995; o carro, contudo, era muito pequeno para ele e, frustrado, Mansell abandonou a temporada após apenas duas provas.
Era o fim da carreira do Leão na F1, mas ele não se afastaria das pistas. Em 1998, Mansell disputou o BTTC – British Touring Car Championship – obtendo um quinto lugar como melhor resultado. Nos últimos dois anos, ele tem competido no GP Masters, vencendo a prova inaugural da categoria, em Kyalami, em novembro de 2005, e o GP de abertura da temporada 2006, no Qatar.
Mansell é casado com Rosanne e tem três filhos: Chloe, Greg e Leo. Os meninos disputaram a Fórmula BMW inglesa em 2006. Hoje, Nigel dedica seu tempo à presidência da UK Youth, uma ONG que promove a educação e o desenvolvimento de jovens.
A coluna de hoje atendeu ao pedido da fã do Mansell, Virág Venekey. Se você quer ver o seu piloto preferido biografado aqui, me envie um email ou deixe um comentário!
Na próxima coluna: Niki Lauda!